O Chapéu do Sol


O Chapéu de Sol do Corcovado, no início do século XX

Enviado por: Paulo Pacini

A paisagem carioca, cenário único criado pela natureza, sempre causou forte impacto em todos, e seu incomparável conjunto de montanhas, mar, céu e vegetação deixa uma marca perene nos olhos e na alma do visitante. Pairando sobre e como que coroando todas as elevações, está a montanha do Corcovado, encimada pela estátua do Cristo Redentor, a qual se tornou, desde sua inauguração, o maior símbolo visual da cidade. Para muitas gerações de cariocas, estátua e montanha são uma coisa só, que sempre esteve no mesmo local. Mas em verdade foi o final de uma longa história, ao longo da qual o cume do Corcovado foi conquistado. Assim, poderíamos até mesmo indagar: Como era o Cristo antes do Cristo?

Por séculos, o pico do Corcovado foi sómente objeto de contemplação, ninguém em sã consciência pensaria em subir até local tão inacessível e perigoso. Tudo começou a mudar no século XVIII, quando a falta de água forçou as autoridades a criarem um sistema de captação e transporte do líquido até o Centro da cidade, através de um aqueduto e dos Arcos, em seu trecho final. Com essa obra, passou a existir um caminho que ia até a origem das águas do rio Carioca, nas montanhas do Corcovado, o que levou os primeiros exploradores do século XIX a realizarem o ousado feito em lombo de burro ou cavalo, subindo a partir da Ladeira de Santa Teresa pelo trajeto das atuais ruas Joaquim Murtinho e Almirante Alexandrino, junto ao aqueduto.

O acesso à montanha só deixaria de ser uma aventura quando, em 1882, os engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares receberam autorização para a construção de uma estrada de ferro que fosse do Cosme Velho até o Corcovado, tornada possível pela recente invenção da tração por cremalheira, do suíço Riggenbach. A obra foi inaugurada em 9 de outubro de 1884, no trecho entre o Cosme Velho e as Paineiras, honrada com a presença do Imperador D. Pedro II e sua família. Os visitantes tiveram o privilégio de realizar uma viagem de sonho por uma floresta quase virgem, da qual se descortinavam fantásticas paisagens, que até então pouquíssimos haviam conhecido.

Em 1º de Janeiro de 1885, a ferrovia chegava até o Alto do Corcovado, ao mesmo local de hoje em dia, e daí subia-se até a plataforma de observação, no local da atual estátua. Para proteger os visitantes do sol inclemente, foi construído um pavilhão de ferro com 13,5 metros de diâmetro, cuja função e formato circular fez com que recebesse o apelido apropriado de “Chapéu de Sol”. Foi contemporâneo de nossos bisavós, até que em 1931 fosse finalmente inaugurado o monumento do Cristo Redentor.

Hoje, mais de 120 anos depois, a subida até o Corcovado continua emocionando e impressionando pessoas do mundo todo, e é fundamental, por parte dos responsáveis, a boa conservação deste patrimônio, que inclui tanto a ferrovia quanto o próprio monumento. É uma forma de honrar o legado histórico e as bênçãos recebidas, representadas pelos generosos braços do Redentor, abertos sobre a Guanabara.

Cabeça e uma das mãos da estátua

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