Tenha modos!

Em seu novo livro, um manual de etiqueta,

Gloria Kalil diz que saber se vestir é bom,
saber se comportar é melhor ainda


Boa aparência é essencial? É, sem dúvida. Mas isso ainda não é garantia de graça ou estilo. Vestir roupas e acessórios adequados pouco adianta quando se esquece o lema de Diana Vreeland (1906-1989), a lendária editora de moda das revistas americanas Harper’s Bazaar e Vogue: “A única forma real de elegância que existe é a elegância da mente. Todo o resto deriva dela”. Na melhor tradição de Vreeland, a brasileira Gloria Kalil, autora de um sucesso nessa área, o livro Chic, que já vendeu 200.000 exemplares, volta às prateleiras das livrarias com uma obra sobre aquela etérea mas vital forma de elegância que se revela menos pela escolha apurada do vestuário e muito mais pela escolha das atitudes. Gloria acaba de lançar Chic(érrimo) – Moda e Etiqueta em Novo Regime, um livro com duas capas (uma para ele, outra para ela) em que o foco é ensinar, acima de tudo, boas maneiras nos tempos atuais. “Passei anos convocando as pessoas a se preocupar com a aparência”, diz ela. “Pois agora estou desconvocando. Parem um pouco de pensar em si mesmas e invistam mais na prática de uma convivência civilizada com as outras pessoas.”

Gloria, bem-educadíssima desde criancinha, se diz impressionada com a ausência generalizada de boas maneiras. “Chega ao ponto de, muitas vezes, a pessoa nem saber que está sendo mal-educada”, diz. Coloca no topo da lista dos maus modos o “total descaso para com o outro”, reflexo em parte da intensa concentração das pessoas nelas mesmas (e aí a moda tem sua parcela de culpa no cartório) e, em parte, do incessante surge-e-some de celebridades – personagens, como se sabe, mal-educados por excelência. Contribui muito também para a atual falta de modos a raridade das ocasiões em que pai, mãe e filhos se sentam e conversam sobre seu dia. “A família não se senta mais à mesa para almoçar ou jantar junta. E esse costumava ser o momento não só de praticar boas maneiras nas refeições como também de contar coisas, comentar acontecimentos, falar da vida alheia, enfim, ensinar e aprender”, observa. Despreparadas para o convívio social, as pessoas, mais cedo ou mais tarde, vão sentir falta de um bom e velho conjunto de regras – nem que seja para transgredi-las com conhecimento de causa, o que é plenamente permitido. Uma vantagem da individualidade reinante é que, de fato, as pessoas não são mais obrigadas a fazer tudo igual às outras. Mas, se decidirem não fazer, têm de saber muito bem onde estão pisando. “Se você foi com seu jeans rasgado a um jantar formal porque quis, faz sentido. Agora, se foi de jeans porque não sabia o que queria dizer ‘traje social’, vai se sentir mal e fora do tom”, diz Gloria em seu livro.

Conhecer as regras se torna mais útil ainda quando se sabe que, para cada transgressor seguro de si, existe uma multidão que morre de medo de cometer uma gafe. “Estamos sempre sendo avaliados – seja por nossa aparência, seja pelo modo como nos comportamos. Por isso, o conhecimento dos códigos pode facilitar muito a vida”, avisa Gloria. Por causa da necessidade de saber se portar socialmente, executivos, donos de empresa e profissionais liberais bem-sucedidos, mas perdidos num jantar formal, estão procurando cada vez mais os cursos de etiqueta disponíveis. “Ainda temos mais mulheres do que homens, mas o número de homens sem dúvida cresceu”, confirma Janir Jurado Fraga, professora de etiqueta do Senac São Paulo. “Hoje, dificilmente tem dondoca no curso. Os melhores alunos são as pessoas simples, que foram ascendendo na vida e precisam saber como se portar”, acrescenta ela, que criou um curso só para seguranças que trabalham com políticos, altos executivos e celebridades. Janir diz que as dúvidas mais comuns ainda envolvem a etiqueta à mesa, mas a lista é vasta e ampla. “Ensino também como andar, como carregar a bolsa, como colocar a pasta no colo, que caneta usar, como arrumar a carteira”, relata. Na escola da chinesa Christine Yufon, veteraníssima professora de postura e apresentação pessoal em São Paulo, que cobra 600 reais pelo curso completo (cinco aulas de duas horas por semana) e 240 reais por aula particular, a procura por regras de etiqueta fez o número de horários disponíveis aumentar de dois, há dois anos, para cinco atualmente. “O segredo é saber utilizar as regras com elegância, saber se portar de forma solta e comunicativa, sem ser vulgar”, ensina Christine. “Ser fino é saber usar as regras com charme e um toque pessoal.” Receber estrangeiros e ser recebido por eles é outra fonte permanente de dúvidas e gafes entre executivos. “É fundamental tomar todas as providências para que o visitante se sinta bem. Por exemplo: muçulmanos praticantes necessitam de uma sala à parte para rezar; japoneses são formalíssimos e comparecem em grupo aos encontros. Quem recebe precisa ter essas coisas em mente”, diz Paulo Striker, que, na função de diretor de logística da Sadia, empresa com negócios na América do Sul, Europa e Oriente, visita estrangeiros e é visitado por eles com freqüência.

Sendo as celebridades um fenômeno mais ou menos recente (pelo menos em quantidade) e – pior – situando-se na perigosa condição de quem tudo pode e de quem tudo se espera, o manual de etiqueta de Gloria Kalil dedica parte de suas recomendações especificamente a elas. “Já que elas invadiram nossa vida, está na hora de propor uma etiqueta de comportamento para que esses dois mundos – o dos simples mortais e o dos famosos – possam trazer mais alegrias do que aborrecimentos para ambas as partes”, explica. Faz parte da “etiqueta do fã” a recomendação: “Mães, não dêem corda à histeria de seus filhos em torno de celebridades”. Estas, por sua vez, até pela maior exposição, têm obrigação de respeitar os outros. Fernanda Barbosa, assessora de eventos em São Paulo, diz que uma gafe comum dos famosos é confirmar presença em uma reunião pequena, exclusiva, e não aparecer. “A pessoa tem lugar marcado na mesa, garante que vai, não aparece nem dá explicações. Isso não acontece em lugar nenhum do mundo. Só aqui”, indigna-se (com muita razão) Fernanda. Chic(érrimo) avisa: “O que prolonga o tempo de validade de um célebre é a contribuição que ele traz com seu trabalho, seu talento e realizações concretas. Sem essa sustentação, o mito não se segura”. Por fim, famosos ou anônimos, em se tratando de saber se comportar, Gloria observa: “Nunca vi ninguém bem-educado ser vetado em coisa alguma”. O francês Yves Saint-Laurent disse certa vez que “a moda é passageira e o estilo, eterno”. Ele lembrava sempre que “ser elegante é esquecer o que se está vestindo”. No caso das boas maneiras, o ideal mesmo é nunca se esquecer de que elegância, como ensina Gloria Kalil, é estar consciente dos sentimentos dos outros.

Elegante é ver o outro

• Em público, procure não se olhar demais no espelho, ajeitar permanentemente a roupa, checar o tempo todo sua aparência.

• Não estique os foras. Ninguém precisa piorar a situação espichando o assunto. Poupe o outro dessa agonia.

• Mulher avisa mulher, homem avisa homem quando há: verde no dente, zíper da calça aberto, peito pulando fora do biquíni, falta de papel no banheiro.

• Nunca mais na sua vida diga: “Troquei uma de 50 por duas de 25” ou “Nooossa! Como você está abatida!”.

• Furar filas para mim é o máximo da incivilidade. Nada justifica – exceto nas emergências hospitalares.

• Aonde você deve ir com uma roupa de arrasar: alfândega americana. Aonde você deve ir bem-vestido, mas nem tanto: fórum. Seja para que pendência for.

• Nunca, jamais, em tempo algum pergunte se alguém fez uma plástica, se colocou Botox, se fez lipo. É tão invasivo e grosseiro quanto perguntar a idade.

• Coisas que condenam você a nunca mais vê-lo depois do primeiro encontro: falar palavrão, beber como um homem, dizer o que vai fazer no banheiro, falar alto.

• Coisas que condenam você a nunca mais vê-la depois do primeiro encontro: exibicionismo, cabelo sujo/oleoso, tratar mal o garçom, falar alto.

• Há um método simplíssimo de resolver qualquer dúvida que um convite possa suscitar: o telefone. Não hesite em ligar para os anfitriões, ou para alguém íntimo deles.

• Para chamar o garçom, não abane a mão, assovie ou, pior de tudo, estale os dedos. O simples chamado “Garçom, por favor” resolve na maioria dos restaurantes. Mas, se o serviço é péssimo e você está há horas fazendo mímicas inúteis, pode até bater palmas para chamar a atenção dele.

• Mais de três pessoas servidas? É o suficiente para que comecem a comer.

• Coisas com D que não se falam à mesa: dieta, doença, depressão, dureza, diretrizes políticas, doutrinas religiosas.

• Sua mesa de trabalho não é seu altar pessoal. Maneire com fotos de família, latinhas coloridas, adesivos, plantas, bichinhos.

• Repetir roupa é chiquérrimo. Mostra bom senso, personalidade e acerto.

Fonte: Veja

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