O meu Aterro

 


O final do Aterro do Flamengo, para quem vem da zona sul, na altura do MAM.

 

O nascimento do Aterro: Reidy e Burle Marx.

Ainda recordo como se fosse ontem aqueles letreiros em neon no topo dos edifícios da Avenida Augusto Severo, no Centro. Mesbla e Melitta são as primeiras marcas que me vêm à cabeça, as que eu definitivamente não consigo esquecer. Havia relógios digitais também, realçados melhormente pelo roxo do início da noite, oferecendo um aspecto todo luminoso de cidade grande a uma paisagem monumental, verde, nada cinzenta. A luzinha dos faróis, pertencentes aos carros enfileirados, num intenso movimento de volta para casa, também ficavam em evidência através da janela traseira do carro do meu pai. Eu podia vê-las todas assim de longe, graças à sinuosidade da Avenida Infante Dom Henrique, a que margeia o Aterro do Flamengo.

Na chegada à Enseada de Botafogo, mais luzes, mais outdoors, mais carros. O Botafogo Praia Shopping não existia ainda, mas lembro-me perfeitamente do Mourisco, de novos letreiros digitais (um da antiga ATL, se não me engano, e outro do Itaú) e dos ciclistas, tão abstraídos daquele estresse pós-expediente. Na minha cabeça de criança, achava curioso aquele bando de gente correndo, se exercitando, ou relaxando, ao lado de um outro bando, mas esse cheio de gente preso em seus carros, aflito para chegar nos seus locais de destino. No Aterro era ainda mais instigante por ser uma pista expressa, como se não combinasse a integração de uma área de lazer com uma de automóveis em alta velocidade. Quando o trânsito pesava na Enseada de Botafogo, em direção ao túnel que leva à Lauro Sodré, meu entretenimento era observar essa galera toda “do lado de lá”, ao som de alguma estação de rádio no estilo notícias+músicas calmas, ainda que a pista sentido Centro estivesse ocupando parcialmente meu campo de visão.

As viagens entre o Centro e a zona sul eram mais interessantes (e até mesmo poéticas) quando optávamos seguir pelo Aterro ao invés dos túneis. E a minha fascinação por ruas da cidade foi só vir à tona na adolescência. O Aterro continuou sendo um dos meus lugares preferidos para admirar, agora, bem mais da janela dos ônibus do que do carro do meu pai. Sair do mergulhão da Praça XV, ultrapassar o Santos Dummont e vislumbrar aquele horizonte aberto, cheio de árvores e monumentos diferentes, é de tirar o fôlego, ainda que eu não admita. É uma paisagem levemente desconcertante, que faz com que eu largue qualquer livro que esteja lendo para apreciar melhor o que há pela frente. Se alguém ousar conversar comigo nesse momento, perceberá meu incômodo ao ter de compartilhar minhas atenções.

É um lugar já visto dezenas de vezes e que nunca causa-me indiferença em percorrê-lo uma vez mais.

As passarelas ao longo do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, vulgo Aterro, são de uma tremenda delicadeza, principalmente à noite, quando recebem iluminação própria. Luz verde, se não me engano. Até pouco tempo era assim. É certo que provoca uma certa comoção ao passar por debaixo delas. Na verdade, aflição encaixa-se melhor no contexto. De tão baixinhas, a dúvida se a altura de um ônibus ou caminhão lhes é compatível é bastante recorrente. No final, óbvio, dá tudo certo e a dinâmica do Aterro se mantém. As quadras poliesportivas continuam cheias de garotos descamisados aos berros, abafados pela imensidão desse grande parque, bem como os janelões dos prédios tradicionais da Praia do Flamengo seguem abertos e abrilhantados pelos seus lustres às vistas de quem está de passagem pelo Aterro.

Unir lembranças infantis, adolescentes e às de hoje sobre o Aterro é um tanto quanto nostálgico. Principalmente quando não vejo mais os letreiros em neon; eles, agora, na sua grande maioria, são painéis, meio ordinários, pouco impactantes. Sem falar que não tem mais Mesbla, outro ícone da infância. O Aterro retrô tem mais a minha cara, mas ainda continua imbatível. Não tem para ninguém, nem para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Quem dera toda avenida-expressa fosse tão agradável quanto o Aterro. Fica a dica para as linhas Amarela, Vermelha e Avenida Brasil.


Com canteiros centrais impecáveis, o Aterro é um das minhas paisagens/avenidas preferidas no Rio.

 

 

Em tempo: Para quem se interessa por arquitetura e urbanismo carioca, não deixem de assistir ao documentáiro “Reidy – A Construção da Utopia“. Conta a obra de Affonso Eduardo Reidy, um dos pioneiros da arquitetura moderna, com projetos notáveis como o Conjunto Habitacional do Pedregulho e o Museu de Arte Moderna, é narrada por meio de depoimentos de Paulo Mendes Rocha, Lúcio Costa, Carmen Portinho e Roland Castro.

Está em cartaz apenas no Unibanco Arteplex, em sessão única por dia, às 20h. Fica na Praia de Botafogo 316.
Não encontrei informação sobre até quando o documentário estará em cartaz, mas você pode ligar para lá e consultar: [21] 2559.8750.

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