‘CRÍTICA’: ‘Avenida Brasil’, literatura, dublagens e legendas

Uma amiga escreveu: “Você reparou o livro que o Tufão estava lendo na cama? Kafka, tá meu bem! Leitura bem apropriada para um ex-jogador de futebol, né?”, ironizou. Depois de Kafka, o personagem de Murilo Benício em “Avenida Brasil” devorou “Madame Bovary”, mais famosa obra de Flaubert. Presente de Nina (Débora Falabella), a aparentemente angelical cozinheira cheia de outras intenções além da disseminação das boas páginas no bairro do Divino. Discordo da minha amiga quando ela fala, com sarcasmo, de “leitura apropriada” para um jogador de futebol.

Para gostar de ler, basta ser alfabetizado, seja o sujeito personagem de novela, seja parte do público que a acompanha. Um exemplo é a reação de Tufão a “A metamorfose”: “Carminha, a história desse livro é doida. O sujeito acorda e virou u’a barata!”, disse ele à mulher, carregando no delicioso carioquês suburbano. O ex-jogador entendeu perfeitamente o que leu. Só ainda não se deu conta do recado que Nina quis passar: ele é a barata e virou inseto por obra de Carminha. “Madame Bovary” foi outro toque, dessa vez sobre a infidelidade conjugal da vilã. Se ele ainda não ligou o nome à pessoa, provavelmente isso ainda vai acontecer.

Além disso, esses títulos, convenhamos, podem ser saboreados por qualquer estudante do ensino médio. Não são nenhum “O som e a fúria” com seus hermetismos, nenhum tratado de Arquimedes sobre corpos flutuantes. Quaisquer citações precisam estar integradas ao enredo, do contrário, ficam pernósticas ou didáticas e João Emanuel Carneiro soube fazer isso. Tufão passou pelos devaneios de Emma Bovary e pelo drama do caixeiro viajante arrimo de família Gregor Samsa sem abandonar suas limitações. O autor não corrompeu o personagem como se subitamente ele virasse um bibliófilo. Isso porque a intenção não é divulgar Kafka ou Flaubert e, sim, dar sentido aos planos maléficos de Nina.

Agora é torcer para que Tufão, qualquer dia, ligue a TV que assina no Divino para assistir ao futebol e, zapeando, caia num canal de filmes. Nem que seja para ver algo da linha “Tubarão 7” para cima. Então, como quem não quer nada, ele poderia reclamar da invasão da dublagem na televisão paga. Os programadores podem se convencer de que ler legendas não é bicho de sete cabeças. Como tudo, é aprendizado e hábito. Fica a sugestão.

Oublixado no blog de Patricia Korgut -O Globo

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