Primeiro arranha-céu do Brasil, A Noite passará por obra

Prédio de 22 andares no Centro, em estilo art déco, será reformado


Edifício A Noite, na zona portuária do Rio Genilson Araújo / Agência O Globo

RIO – Um senhor de 83 anos, o Edifício A Noite, na Praça Mauá, vai se submeter a uma reforma à altura de sua história. Primeiro arranha-céu da América Latina, marco da arquitetura art déco, o prédio, de 22 andares e um subsolo, tem a assinatura dos arquitetos Elisiário Bahiana e Joseph Gire, este responsável por outros projetos grandiosos na cidade, como o Copacabana Palace e o Hotel Glória. Pertencente à União, ele é cedido ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que ocupa 20 dos pavimentos. O INPI publicou edital, na última quinta-feira, no qual confirma o retrofit da edificação, que, assim, acompanhará a transformação pela qual passa a Região Portuária, com obras como a do Museu do o Amanhã, no Pier Mauá; e o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá.— A intenção é modernizar o prédio para os funcionários e abrir suas portas à sociedade com a criação de um centro cultural — anuncia o presidente do INPI, Jorge Avila.

Os funcionários do INPI estão, aos poucos, desocupando o prédio, e vão ficar, durante a reforma, em dois prédios. Instalada no último andar, de onde se vê uma bela vista do Centro, a Rádio Nacional também funcionará em outro endereço durante as intervenções. A Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) já está à procura de uma instalação provisória. Até julho, o A Noite estará totalmente vazio e com a reforma sendo tocada. Arquiteto e historiador, Nireu Cavalcanti descreve o prédio como o primeiro grande desafio do concreto armado no Brasil:

— No A Noite, o engenheiro Emílio Bougart, que fez o cálculo estrutural, fez algo inédito na América Latina, já que prédios daquele tamanho só havia nos Estados Unidos. Não à toa, ele foi chamado para outros projetos marcantes, como o Edifício Gustavo Capanema, nos anos 1940.

O escritório de arquitetura que vencer a concorrência para o projeto básico terá uma verba de R$ 6 milhões. Nele, além da restauração arquitetônica, deverá haver soluções de sustentabilidade ambiental, instalações elétricas e cabeamento de telefonia. Com o projeto básico definido, o INPI fará o cálculo dos recursos federais para a reforma.

Antes do Corcovado, o principal mirante do Rio

Com a fachada voltada para a Praça Mauá e os fundos em direção à Travessa do Liceu, onde ambulantes e pedestres disputam o espaço apertado, o Edifício A Noite hoje destoa, em matéria de utilização, daquele tempo, quando abrigava o vespertino “A Noite” e os prédios não passavam de seis andares.

— Logo que foi inaugurado, o último andar do A Noite era o principal mirante da cidade, já que o Cristo Redentor só seria inaugurado em outubro de 1931 — conta Márcio Roiter, presidente do do Instituto Art Déco Brasil.

Nos anos 1940 e 1950, o prédio, já sem o jornal. surfava nas ondas do rádio, ou melhor, da Rádio Nacional, fundada em 1937. Novelas irradiadas faziam sucesso semelhante às da TV atualmente. Na música, o auditório da rádio apresentava cantores como Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas, além de geniais arranjos do maestro Radamés Gnattali.

Com 102 metros de altura, o A Noite foi construído em dois anos, com a pedra fundamental lançada em 1926. Na época da inauguração, o contraste de seu tamanho com o entorno causou polêmica. Para o historiador Nireu Cavalcanti, o edifício anunciava uma nova era na arquitetura brasileira:

— Depois dele, vários edifícios modernistas começaram a ser construídos.

Roiter observa que Lúcio Costa, principal nome da arquitetura moderna no Brasil, teve escritório no A Noite.

— Nesse escritório, ele era sócio do arquiteto ucraniano naturalizado brasileiro Gregori Warchavchik — relembra.

Lúcio chegou a escrever textos elogiosos a Emílio Baungart, o engenheiro que fez o cálculo estrutural do prédio.

Em 1934, o A Noite deixou o posto de mais alto da América Latina. Era então inaugurado o Edifício Martinelli, em São Paulo, com 105 metros. Em 1935, em Buenos, Aires surgia, desbancando os dois, o Edifício Cavanagh, com 120 metros.

— Havia uma interessantíssima a competição na época entre o Martinelli e o A Noite, muito bem descrita no livro “A Escola Brasileira do Concreto Armado”, de Augusto de Vasconcelos e Renato Junior — conta Roiter.

Hoje, quem passa na Ponte Rio-Niterói, vê o A Noite ao lado do prédio RB1, de estilo pós-moderno, fazendo um interessante contraste.

A reforma do edifício deve recuperar o hall da entrada, onde e estilo art déco está escondido entre divisórias de madeiras de gosto duvidoso. Com mudanças assim, o A Noite pode voltar a brilhar e fazer jus à sua história.

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